É incontestável que as inteligências artificiais vieram para ficar. Uma mudança profunda na forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos com a tecnologia já está em curso — e acontece de maneira silenciosa, no cotidiano das pessoas.
Hoje, a IA está presente desde as aplicações mais simples até as mais complexas:
sugestões de textos e e-mails, correção ortográfica, recomendações em plataformas de streaming, assistentes virtuais, geração de imagens, automação de tarefas, análise de dados, apoio a decisões financeiras, jurídicas e médicas, entre muitas outras.
No entanto, o que se percebe é que grande parte das pessoas utiliza esses recursos de forma básica, sem o conhecimento necessário para explorar todo o seu potencial. E, naturalmente, quanto maior o nível de uso e sofisticação, maior tende a ser o custo. Para muitos usuários, isso acaba se tornando mais uma despesa no orçamento pessoal ou empresarial.
Outro ponto que merece atenção é a empolgação generalizada com novas soluções de IA. Ferramentas que oferecem recursos impressionantes surgem quase diariamente, conquistam milhares — ou milhões — de usuários em pouquíssimo tempo, e são adotadas sem qualquer preocupação com segurança. O foco passa a ser apenas o resultado imediato, o prazer da entrega rápida, deixando a cautela em segundo plano.
Vivemos em uma era de estímulos constantes. As pessoas estão cada vez mais conectadas, com altos níveis de dopamina, dificilmente se afastam do computador ou do celular, e esperam respostas rápidas e soluções instantâneas. É exatamente nesse cenário que a inteligência artificial se encaixa perfeitamente: acelerar resultados, reduzir esforço e eliminar tarefas repetitivas.
Já parou para pensar que, diariamente, estamos fornecendo imagens detalhadas do nosso rosto para a geração de avatares, animações e filtros “divertidos”? Fotografias em alta resolução, múltiplos ângulos da face, expressões e movimentos — dados extremamente sensíveis — são enviados para plataformas que muitas vezes não deixam claro como essas informações são armazenadas, por quanto tempo permanecem guardadas ou para quais finalidades futuras poderão ser utilizadas.
E se esses dados forem vazados? Já imaginou alguém se passando por você, utilizando sua imagem, sua voz ou até suas expressões faciais para aplicar golpes, fraudes ou manipular informações?
O problema é que, muitas vezes, um aplicativo é lançado e, antes mesmo de ser devidamente validado por especialistas, já está sendo amplamente utilizado pelo mercado. Questões essenciais — como segurança da informação, proteção de dados pessoais e integridade dos sistemas — acabam sendo ignoradas.
Um exemplo recente é o Malbot (anteriormente conhecido como Clawbot ou OpenClaw), que se tornou o “queridinho do momento”. A proposta é sedutora: um agente ou assistente capaz de executar tarefas operacionais, muitas vezes chatas ou demoradas, funcionando 24 horas por dia, sem descanso.
Imagine poder:
- comprar passagens aéreas,
- reservar mesas em restaurantes,
- pagar contas,
- responder e-mails,
- organizar agendas e compromissos,
- entre muitas outras atividades.
Tudo isso de forma automática.
Entretanto, muitas dessas ações exigem que o usuário forneça informações extremamente sensíveis, como logins, senhas e até dados de cartão de crédito. E é justamente nesse ponto que os cuidados recomendados costumam ser negligenciados. Uma orientação básica, por exemplo, é utilizar esse tipo de ferramenta em uma máquina isolada, que não seja a mesma usada no dia a dia — algo que raramente é feito.
Deixando um pouco de lado os benefícios, é fundamental falar também dos riscos. Muitas pessoas partem da premissa que se muita gente está usando então o produto é seguro. Empresas de cibersegurança já identificaram falhas importantes em ferramentas de IA recentes, como ocorreu com o DeepSeek e o Moltbook. Na maioria dos casos, os problemas estão relacionados a vulnerabilidades e vazamento de dados — e com o Malbot não foi diferente. Ainda que correções tenham sido implementadas, os danos iniciais já haviam ocorrido.
Por isso, antes de sair se cadastrando, contratando serviços ou fornecendo dados pessoais — como nome, e-mail e informações financeiras, sua imagem, voz — é essencial buscar informações confiáveis. Vale consultar o que especialistas estão dizendo, entender quais cuidados devem ser tomados e avaliar se aquela ferramenta realmente é segura para o seu perfil de uso.
A inteligência artificial é, sem dúvida, uma das maiores revoluções tecnológicas do nosso tempo. Ela deve ser usada, explorada e aproveitada ao máximo. Mas, principalmente para quem não domina profundamente a tecnologia, o melhor caminho ainda é o equilíbrio: utilizar com consciência, moderação e atenção à segurança.
Usar Inteligência Artificial sem pensar em segurança é um risco que muitos estão ignorando. Inovação sem consciência vira vulnerabilidade.
Seja inteligente. Não artificial.
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Joel Rezende Junior


